terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Saudade


Saudade é não saber.
Não saber o que fazer 
com os dias que ficaram
mais compridos, não saber 
como encontrar tarefas que 
lhe cessem o pensamento, 
não saber como frear as 
lágrimas diante de uma música, 
não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.






Martha Medeiros.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Sozinha...



“No fundo sou sozinha. 
Há verdades que nem a Deus eu contei. 
E nem a mim mesma. 
Sou um segredo fechado a sete chaves. 
Por favor me poupe. 
Estou tão só. Eu e meus rituais. 
O telefone não toca. 
Dói. 
Mas é Deus que me poupa.”



Clarice Lispector.

Mais que palavra...


...Não deixe de acreditar no amor, 
mas certifique-se de estar entregando seu coração 
para alguém que dê valor aos mesmos sentimentos 
que você dá, manifeste suas idéias e planos, 
para saber se vocês combinam, e certifique-se de que 
quando estão juntos aquele abraço vale mais que qualquer palavra...



Luis Fernando Veríssimo

Cheia de manias...



Sou cheia de manias. Tenho carências insolúveis. 
Sou teimosa. Hipocondríaca. Raivosa, quando sinto-me atacada. 
Não como cebola. Só ando no banco da frente dos carros. 
Mas não imponho a minha pessoa a ninguém. 
Não imploro afeto. Não sou indiscreta nas minhas relações. 
Tenho poucos amigos, 
porque acho mais inteligente ser seletivo a respeito daqueles que
 você escolhe para contar os seus segredos. 
Então, se sou chata, não incomodo ninguém que não queira ser incomodado. 
Chateio só aqueles que não me acham uma chata, 
por isso me querem ao seu lado. 
Acho sim, que, às vezes, dou trabalho. 
Mas é como ter um Rolls Royce: 
se você não quiser ter que pagar o preço da manutenção, mude para um Passat.


Fernanda Young

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Dói e é incômodo...



Compreendo tudo muito mais.
Dói e é incômodo.
Vontade de não saber perdoar, de não ser compreensivo, tolerante — de não me contentar com o pouco — “amor malfeito, depressa, fazer a barba e partir”.
O domingo tá acabando — já é tarde — amanhã a gente começa de novo.
Eu me sinto às vezes tão frágil, queria me debruçar em alguém, em alguma coisa. Alguma segurança.
Invento estorinhas para mim mesmo, o tempo todo, me conformo, me dou força.
Mas a sensação de estar sozinho não me larga.
Algumas paranóias, mas nada de grave. o que incomoda é esta fragilidade, essa aceitação, esse contentar-se com quase nada.





Caio Fernando. Abreu

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Sou dramática, intensa, transitória...



Eu nunca fui uma moça bem-comportada.
Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida,pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal resolvido sem soluços.
Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo.Não estou aqui pra que gostem de mim.Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho.E pra seduzir somente o que me acrescenta.
Adoro a poesia e gosto de descascá-la até a fratura exposta da palavra.
A palavra é meu inferno e minha paz.
Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que me deixa exausta.
Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo.
Sei chorar toda encolhida abraçando as pernas.
Por isso, não me venha com meios-termos,com mais ou menos ou qualquer coisa.Venha a mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar...
Eu acredito é em suspiros,mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis,em alegrias explosivas, em olhares faiscantes,em sorrisos com os olhos, em abraços que trazem pra vida da gente.
Acredito em coisas sinceramente compartilhadas.
Em gente que fala tocando no outro, de alguma forma,no toque mesmo, na voz, ou no conteúdo.
Eu acredito em profundidades.
E tenho medo de altura, mas não evito meus abismos.
São eles que me dão a dimensão do que sou.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A vida segue...



Eu queria te contar que não dói mais. Só que agora não importa tanto o que você vai pensar sobre isso.
Queria que você soubesse que já vi nossos filmes milhares de vezes e nem chorei. Ok, chorei. Mas pelo filme, e não por você.
Queria que você soubesse que tirei a poeira das nossas músicas, e que as ouço quase todos os dias. Porque elas me faziam mais falta do que você fez.
Os nossos lugares não são mais nossos. Eu já voltei lá com outras pessoas, e escrevi lá outras histórias...
Eu estou aprendendo a tocar violão. E a primeira música que toquei foi aquela música que era uma espécie de hino pra nós dois. Ela é tão linda...e sim, ela continua sendo muito nossa e lembrando demais você. Mas ainda sim, não dói.
Você não pergunta essas coisas, mas sei que gostaria de saber. Porque te conheço. E isso não mudou.
Do mesmo jeito que adivinhei as coisas ruins que você aprontaria, eu sei as coisas boas que ficaram aí em você e te fazem lembrar de mim.
Porque a vida segue. Mas o que foi bonito fica com toda a força. Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves, certos momentos nem o tempo apaga. 
E a gente lembra. E já não dói mais. Mas dá saudade. Uma saudade que faz os olhos brilharem por alguns segundos e um sorriso escapar volta e meia, quando a cabeça insiste em trazer a tona, o que o coração vive tentando deixar pra trás.

Então eu pego o passado, e transformo em poesia-ou-coisa-assim.








Caio Fernando Abreu



É difícil dizer eu te amo...



É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste. 
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia. 
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua. 
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo. 
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar. 
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo. 
Se você errou, peça desculpas... 
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado? 
Se alguém errou com você, perdoa-o... 
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender? 
Se você sente algo, diga... 
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar 
alguém que queira escutar? 
Se alguém reclama de você, ouça... 
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz? 
Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível 
Precisamos acreditar, ter fé e lutar 
para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos, 
realidade!!!





quinta-feira, 30 de junho de 2011

Casa arrumada



Casa arrumada  é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha? Tapete sem fio puxado? Mesa sem marca de copo? Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança. Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto..
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.A que está sempre pronta pros amigos, filhos...netos, pros vizinhos..
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...e reconhecer nela o seu lugar. 

Carlos Drummond de Andrade 

domingo, 19 de junho de 2011

Autopsicografia



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.









Fernando Pessoa

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Eu e minha liberdade...











E eis que em breve nos separaremos
E a verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia
Eu agora sei, eu sou só
Eu e minha liberdade que não sei usar
Mas, eu assumo a minha solidão
Sou só, e tenho que viver uma certa glória íntima e silenciosa
Guardo teu nome em segredo
Preciso de segredos para viver
E eis que depois de uma tarde de quem sou eu
E de acordar a uma hora da madrugada em desespero
Eis que as três horas da madrugada, acordei e me encontrei
Fui ao encontro de mim, calma, alegre, plenitude sem fulminação
Simplesmente eu sou eu, e você é você
É lindo, é vasto, vai durar
Eu não sei muito bem o que vou fazer em seguida
Mas, por enquanto, olha pra mim e me ama
Não, tu olhas pra ti e te amas
É o que está certo
Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca
E tudo isso ganhei ao deixar de te amar
Escuta!
Eu te deixo ser…
Deixa-me ser!

Clarice Lispector

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Pessoa mais ou menos.....



A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos. 

A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro. 

A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos... 

TUDO BEM!

O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum... 
é amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos, e acreditar mais ou menos. 

Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos.



sexta-feira, 15 de abril de 2011

Sentir...


Tantas vezes, tantas, como agora, 
me têm pesado sentir que sinto – 
sentir como angústia só por ser sentir, 
a inquietação de estar aqui, 
a saudade de outra coisa que se não conheceu, 
o poente de todas as emoções… 
Ah, quem me salvará de existir? 
Não é a morte que quero, nem a vida:
é aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia…






Fernando Pessoa

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Urgências da vida...


Um dia tudo isso vai acabar e voltaremos ao ponto de partida...
Então percebo que chega um determinado momento de nossas vidas, que a entrega total faz-se necessário
E precisamos experimentar tudo de todas as maneiras e sentir tudo de todas as formas, sem o menor constrangimento
É preciso entregar-se sem pudor e de preferência, com toda malicia do mundo.
Às vezes, é preciso perguntar a si mesmo
Qual é a minha maior urgência na vida?
É preciso sair da mesmice, surpreender a si mesmo, provar as sensações e situações por mais absurdas que pareçam, as novidades na vida, são essenciais para os amantes do prazer.
Amar com intensidade infinita,
Entregar-se ao fogo das paixões casuais, mesmo que proibidas
Viver cada momento como se fosse o ultimo
Gritar até que alguém nos ouça
Buscar respostas para as perguntas ainda abertas
Fechar feridas ainda não cicatrizadas
É preciso dizer adeus para aqueles que inutilmente ainda nos aguardam
Afinal é extremamente covarde, aquele que deixa alguém esperando, mesmo sabendo que jamais voltara.
É preciso aprender virar as paginas da vida que apresentam pessoas que nos fizeram e ainda nos fazem sofrer, deixando marcas negativas em nossas vidas.
É necessário mesmo que sutilmente, fechar as portas do coração para amores antigos e ausentes...
É inútil deixar portas abertas para aqueles que jamais voltarão...
É preciso chorar todas as dores ainda vivas na alma, é inútil carregá-las mais tempo que necessário.
É preciso levantar depois de ter caído
Sorrir depois de ter chorado
É preciso seguir em frente mesmo estando totalmente perdido e desorientado...
Nesses momentos, que podemos encontrar os maiores tesouros de nossas vidas
Às vezes é preciso fugir de si mesmo, para evitar conflitos internos, mas não por toda a vida, encare-se no momento adequado...
É preciso saber usar palavras duras em momentos delicados
Ausentar-se, mesmo sua presença sendo essencial, deixar saudades e ser lembrado, sempre faz bem ao ego...
Afinal, o tempo esta passando, e não existe nada e ninguém mais intransigente e duro do que os ponteiros da vida
Então divirta-se enquanto você passa, não se prende e não adia momentos...
A vida é a maior de todas as urgências do mundo
E a sua não é diferente.


Samuel Ferreira de Moraes


(SFM)

domingo, 10 de abril de 2011

Ausência



Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces 
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. 
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida 
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. 
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. 
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados 
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada 
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. 
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face. 
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. 
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. 
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. 
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. 
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. 
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. 
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. 
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. 
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.





Vinícius de Moraes

Dá-me a tua mão













Dá-me a tua mão desconhecida,
que a vida está me doendo,
e não sei como falar - 
a realidade é delicada demais,
só a realidade é delicada,
minha irrealidade e 
minha imaginação são mais pesadas...








C
larice Lispector

quinta-feira, 31 de março de 2011

Se tu vens...


Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, 
desde as três eu começarei a ser feliz. 
Quanto mais a hora for chegando, 
mais eu me sentirei feliz. 
Às quatro horas, então, 
estarei inquieto e agitado: 
descobrirei o preço da felicidade! 
Mas se tu vens a qualquer momento, 
nunca saberei a hora de preparar o coração... 



A. Saint-Exupéry

domingo, 27 de março de 2011

feche os olhos ao beijar...



Não há quem não feche os olhos ao cantar a música favorita.
Não há quem não feche os olhos ao beijar, não há quem não feche os olhos ao abraçar.
Fechamos os olhos para garantir a memória da memória.
É ali que a vida entra e perdura, naquela escuridão mínima, no avesso das pálpebras.
Concentramo-nos para segurar a dispersão, para segurar a barca ao calor do remo.
O rosto é uma estrutura perfeita do silêncio. Os cílios se mexem como pedais da memória.
Experimenta-se uma vez mais aquilo que não era possível.
Viver é boiar, recordar é nadar.”



sexta-feira, 25 de março de 2011

A verdade não me faz sentido!


A verdade não me faz sentido! 
É por isso que a temia e a temo.
Desamparada,eu te entrego tudo - 
para que faças disso uma coisa alegre.
Por te falar eu te assustarei e te perderei? 
mas se eu não falar eu me perderei,
e por me perder,eu te perderia.










quinta-feira, 24 de março de 2011

Olhos nos olhos





















Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mas nem porque
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz




Chico Buarque, 


quarta-feira, 23 de março de 2011

Éramos amigos..





Éramos amigos e agora 
somos estranhos um ao outro.
Mas não importa que assim o seja:
não procuremos escondê-lo ou calá-lo 
como se isso nos desse razão para nos envergonhar.
Somos dois navios 
cada um dos quais com o seu objetivo 
e a sua rota particular